Levantamento do IBGE divulgado neste mês põe o município na liderança nacional, com alta de 28% no valor da colheita
Em 31 de outubro de 2025, Nelson Dias da Silva, agricultor de São João do Triunfo e coordenador regional da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) no Centro-Sul do Paraná, entrou na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, ao lado das agricultoras Ana Paula Wenglarek e Jessica Mara Vergopolem, para receber um certificado das Nações Unidas. O documento reconhece o cultivo sombreado de erva-mate do Paraná como Sistema Importante do Patrimônio Agrícola Mundial, o segundo do Brasil, depois do sistema das flores sempre-vivas da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais.
Cruz Machado, município de 15.978 habitantes no Sul do Paraná, é um dos 11 da área reconhecida e desde abril de 2023 é, por lei, a Capital Nacional da Erva-Mate Sombreada, título criado pela Lei 14.551, nascida do Projeto de Lei 1818/2019, de autoria individual do deputado federal Toninho Wandscheer (PP).
Sombreada descreve o modo de plantar. A erva-mate cresce entre outras espécies, inclusive mata nativa, que barram o sol direto. Segundo a FAO, o sistema ajuda a conservar a Floresta com Araucária, da qual resta cerca de 1% da cobertura original. Estudo da Embrapa Florestas em ervais sombreados de Cruz Machado registrou corte a cada 24 meses. O levantamento do IBGE não separa a erva-mate sombreada da cultivada a pleno sol, e os dois sistemas existem dentro do município.
A Produção Agrícola Municipal do IBGE, divulgada em 17 de setembro, registra 93 mil toneladas de folha verde colhidas em Cruz Machado em 2025, a maior produção municipal do país e 40% acima do segundo colocado, Ilópolis, no Rio Grande do Sul, com 66 mil toneladas. O terceiro é Bituruna, vizinho no mesmo pedaço do Paraná, com 63 mil. O estado colheu 494 mil das 870 mil toneladas do Brasil.
A colheita ocupou 9,3 mil hectares e rendeu R$ 102,3 milhões, 28% a mais que os R$ 79,9 milhões de 2024. No mesmo intervalo o valor da erva-mate no país caiu 3,7%, e o volume colhido em Cruz Machado subiu menos de 5% sobre as 88,8 mil toneladas de 2024.
“A nossa erva-mate produzida no sistema sombreado pela mata nativa tem uma diferença de qualidade que é percebida no paladar. As maiores ervateiras do Rio Grande do Sul vêm até a nossa região para comprar a nossa erva para misturar com a deles, que é produzida em ervais a céu aberto”, descreveu Nelson Dias da Silva à Gazeta do Povo, em 2022. O dossiê enviado à FAO foi construído por mais de 30 instituições, entre elas o Observatório da Erva-Mate, a Embrapa Florestas e o IDR-Paraná, e o sistema reconhecido envolve cerca de 400 famílias.
“Cruz Machado leva o nome da erva-mate sombreada porque é ali que o sistema está de pé. Quem produz assim trabalha junto com a floresta. A lei federal reconheceu o município em 2023, e a ONU reconheceu o método em 2025”, afirma Toninho Wandscheer.
Toninho Wandscheer é deputado federal pelo Paraná, no terceiro mandato, e coordena a bancada paranaense na Câmara dos Deputados desde 2016. Engenheiro, foi prefeito de Fazenda Rio Grande por dois mandatos e deputado estadual.

