“Cuidar da saúde mental deixou de ser uma ação de bem-estar e passou a ser uma estratégia essencial para a sustentabilidade das empresas”, afirma psicóloga especialista em recrutamento e seleção
O Brasil vive um momento de alerta quando o assunto é saúde mental no ambiente de trabalho. Em 2025, o país registrou mais de 546 mil afastamentos ao INSS por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o segundo recorde em apenas dez anos. O cenário evidencia o impacto crescente de doenças como ansiedade, depressão e Síndrome de Burnout sobre trabalhadores, empresas e toda a economia brasileira.
Os dados mostram que o número de benefícios concedidos por transtornos mentais cresceu 134% em apenas dois anos. Atualmente, depressão e ansiedade já representam a segunda principal causa de afastamentos do trabalho, atrás apenas das doenças da coluna.
Para a psicóloga e especialista em recrutamento e seleção, Cleia Soares, os números refletem uma mudança profunda nas relações de trabalho e reforçam a necessidade de as organizações assumirem um papel mais ativo na prevenção. “A saúde mental nunca esteve tão em evidência. Hoje sabemos que cuidar das pessoas deixou de ser apenas uma iniciativa de qualidade de vida para se tornar uma estratégia de sustentabilidade dos negócios. Empresas que promovem ambientes saudáveis reduzem afastamentos, melhoram o clima organizacional e aumentam o engajamento das equipes”, afirma.
Estudos apontam que 85% dos profissionais relatam sintomas de esgotamento emocional, enquanto o Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade entre trabalhadores. Cerca de 32% dos profissionais brasileiros já receberam diagnóstico de Síndrome de Burnout, condição relacionada ao estresse crônico provocado pelo ambiente de trabalho.
Nova legislação amplia responsabilidade das empresas
A discussão ganhou ainda mais relevância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir que empresas de todos os portes incluam os chamados riscos psicossociais na gestão de Segurança e Saúde no Trabalho.
Na prática, além dos riscos físicos, as organizações deverão identificar, avaliar e controlar fatores capazes de provocar adoecimento emocional, como: assédio moral e sexual; sobrecarga de trabalho; pressão excessiva por metas; lideranças despreparadas; conflitos interpessoais; clima organizacional negativo; falta de autonomia; violência psicológica; estresse ocupacional; Síndrome de Burnout.
Segundo Cleia Soares, a atualização da norma representa uma mudança de paradigma na gestão de pessoas. “A legislação reforça que prevenir o adoecimento psicológico é uma responsabilidade organizacional. Isso significa olhar para o ambiente de trabalho, para a forma como as lideranças conduzem suas equipes e para a cultura da empresa. A prevenção passa a ser tão importante quanto a prevenção de acidentes físicos”, pontua a especialista.
Impactos vão além das empresas
O adoecimento emocional não afeta apenas os trabalhadores. Ele também provoca reflexos diretos sobre a produtividade, o sistema público de saúde e a Previdência Social.
Estimativas apontam que os transtornos mentais podem representar cerca de 6% da folha de pagamento das empresas, considerando custos relacionados ao absenteísmo, presenteísmo, rotatividade, afastamentos e queda de produtividade. “Os dados revelam ainda que 65,8% dos casos relacionados ao trabalho ocorrem entre mulheres, especialmente na faixa etária entre 35 e 49 anos. Bancários e profissionais da enfermagem figuram entre as categorias mais afetadas”, comenta Cleia.

